Restauração da Capela de São Sebastião das Águas Claras

 

A proposta de restauração da identidade cultural de São Sebastião das Águas Claras tem como primeiros patrocinadores o Ministério da Cultura, através da Secretaria de Patrimônio e Artes Plásticas, a Prefeitura Municipal de Nova Lima, a Fundação Mineira de Educação e Cultura (FUMEC) e a SMPB Comunicação. A realização e coordenação do projeto estão sob responsabilidade da C/Arte Projetos Culturais e tem o apoio da Rede Globo Minas. 

 

 

Histórico 

A Capela de São Sebastião das Águas Claras, construída na primeira metade do século XVIII, na região conhecida como "Descoberto dos Macacos", preserva, ainda hoje, um patrimônio histórico e cultural de grande relevância. Apesar da grave degradação e descaracterizações que vinha sofrendo ao longo do tempo, seus bens móveis e integrados possuem um potencial a ser revalorizado e preservado como centro irradiador da identidade cultural e constitui importante registro histórico e artístico local. A Capela é também o local de encontro e de realização dos rituais das irmandades religiosas, mantenedoras da tradição da Igreja Católica desde os tempos coloniais, apresentando um rico potencial antropológico a ser resgatado.

O Projeto  

O projeto realizado em São Sebastião das Águas Claras objetivou a restauração da Capela, o resgate da identidade e da memória local, uma ação educativa junto à comunidade, bem como a dinamização do turismo histórico e cultural da região.

 

A Restauração

O Projeto de conservação e restauração do patrimônio viabilizado pela parceria entre a C/Arte Projetos Culturais, a Prefeitura de Nova Lima, a SMPB Comunicação e a Fundação Mineira de Educação e Cultura (FUMEC), buscou restabelecer os valores estéticos e históricos contidos nas obras: um retábulo-mor e cinco imagens de madeira policromada.

Os trabalhos de restauração foram realizados entre os meses de junho e outubro de 2002, por uma equipe de sete profissionais, três pessoas da comunidade e dois voluntários coordenados pela restauradora Carolina Nardi.

 

Restauração passo a passo 

Inicialmente foi realizada a desmontagem do retábulo para o tratamento da madeira. Uma limpeza superficial foi feita utilizando trinchas (pincéis largos). A partir daí, peças em pior estado de conservação foram separadas, já que precisariam ser substituídas. ‘Parte do piso estava tão estragado que as madeiras se rompiam ao pisar’, conta a restauradora responsável pelo projeto Carolina Nardi. Todo o acervo foi submetido à ação de gases tóxicos para matar insetos. Após esse processo, foi realizada a limpeza criteriosa das peças, eliminando excrementos e larvas de insetos que entupiam as peças por dentro. ‘Tivemos que abrir as peças com cuidado para não danificá-las’, diz a restauradora. ‘Com a ação dos cupins, muitas vezes a peça fica apenas com uma casquinha’, explica.

 

Para que a madeira voltasse à forma que tinha antes, sem irregularidades e buracos, foi preciso recompor galerias abertas pelos insetos, normalmente brocas ou cupins. Só então foi iniciada a remoção das repinturas feitas ao longo dos anos. ‘A contar pelo estado que se encontravam, as peças nunca foram restauradas. Antigamente, era feita no máximo uma pintura, na maioria das vezes por pessoas não capacitadas, como pintores de parede e até pessoas da comunidade’, explica Nardi. Como as demais etapas, remover as repinturas exige paciência. ‘Usamos um bisturi e solvente para fazer a leitura do passado da obra’, diz.

O próximo passo será a recomposição de partes do retábulo, danificadas pelo tempo. ‘Refazemos partes que se perderam, como uma folha no retábulo, por exemplo’. Ao mesmo tempo, será iniciada, após preparação adequada, a pintura de partes da peça em branco ou com falhas. ‘São detalhes. Usamos um pincel finíssimo’, explica. Uma tinta especial é usada para aproximar ao máximo a cor da pintura original. ‘Precisamos usar uma tinta mais estável, que não muda de cor com o tempo’. [1]

 

O resgate da identidade e da memória local

Como desdobramento da restauração e conservação da Capela, projeta-se a realização de um vídeo/DVD, denominado “Atenção Comunidade”, focalizando a cultura local por meio de imagens e depoimentos de seus habitantes. Bem como a criação de um “Centro de Memória de São Sebastião das Águas Claras”, onde serão apresentados ao público documentos, objetos e imagens da cidade, registros da fala de representantes da comunidade e dos rituais das irmandades locais, estabelecendo o diálogo entre o antigo e o novo através de uma intervenção de arte pública; e o resgate da tradição da festa de São Sebastião, padroeiro da cidade, que acontece no dia 20 de janeiro de cada ano.

 

Ação educativa junto à comunidade

Ampliando essa iniciativa, propõe-se uma ação educativa com os alunos da Escola Municipal Rubem Costa Lima que desde agosto de 2002 vem tendo contato semanalmente com conceitos de identidade e patrimônio culturais com a ajuda da restauradora Moema Queiroz – integrante da equipe de restauração da Capela, visando à conscientização da importância da preservação da memória e do patrimônio histórico, artístico e cultural de São Sebastião das Águas Claras. Essa ação propõe estabelecer um diálogo com a comunidade por meio de um ateliê de restauro aberto ao público, de cursos, palestras, seminários e oficinas abertos a artesãos, artistas, comerciantes, turistas, professores e universitários.

 


[1] Publicado originalmente in: Nova Lima Gerais.  Nova Lima: set. 2002, p. 9.